Os 'chefes do poder': após Venezuela, temos uma nova ordem mundial?

  • 08/01/2026
(Foto: Reprodução)
Miriam Leitão: Ameaças de Trump colocam Otan em risco. O ataque dos Estados Unidos à Venezuela não mexeu apenas com o tabuleiro regional. Também chacoalhou a ordem que rege o xadrez geopolítico no mundo inteiro desde o fim da Guerra Fria. Com a ofensiva, o planeta entra agora em uma nova ordem mundial, na opinião de especialistas ouvidos pelo g1. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp “Nós acordamos em 3 de janeiro, e o mundo já tinha mudado”, afirmou ao g1 o professor de Relações Internacionais da ESPM Leonardo Trevisan, em referência ao dia em que tropas norte-americanas bombardearam Caracas e capturaram Nicolás Maduro. ➡️ A ofensiva de Trump, segundo analistas, deixou evidente que Estados Unidos e China — e, em algumas análises, a Rússia em menor medida, são os grandes polos de poder no mundo e disputam forças desrespeitando fronteiras, instituições e acordos que regiam a geopolítica mundial até agora. As análises se baseiam nas seguintes evidências: EUA e China, as duas grandes potências econômicas, além da Rússia, têm demonstrado a intenção de expandir seus territórios com ações concretas; A Rússia invadiu a Ucrânia em 2022; o governo Trump entrou no espaço aéreo e terrestre da Venezuela e ameaça tomar a Groenlândia da Dinamarca; já a China tem sido acusada de invadir águas de países vizinhos para construir ilhas artificiais com fins militares (leia mais abaixo); As ações militares ocorrem em países próximos com o pretexto de "proteger" as áreas de influência das 3 grandes potências; Os "chefões" da geopolítica atual têm agido à revelia dos principais acordos feitos após a Segunda Guerra Mundial, como a Carta da ONU e os princípios do direito internacional. 📖 Depois do fim da Guerra Fria, do colapso da União Soviética e de um período de hegemonia dos Estados Unidos, o mundo entrou em uma nova ordem mundial, a multipolar, na visão de muitos estudiosos. Isso quer dizer que o poder era distribuído por múltiplos "polos" ao redor do planeta — principalmente os Estados Unidos, mas também a Europa, o Japão, a China e, mais tarde, países do Brics como o Brasil. Todos colaboravam e competiam entre si, regidos por instituições multilaterais criadas após a 2ª Guerra Mundial para estabelecer a ordem nas relações entre países, como a própria Organização das Nações Unidas (ONU), além da Organização Mundial do Comércio (OMC) e a Organização Mundial da Saúde (OMS). Embora especialistas ainda discordem no tipo da nova configuração do xadrez geopolítico, o consenso é de que esse modelo está ruindo e de que a ofensiva de Donald Trump na Venezuela no fim de semana cimentou de vez a mudança. Para a professora de Ciências Políticas da Universidade Yale, nos Estados Unidos, Oona Hathaway, a ação de Trump colocou fim "a uma era de paz histórica e ameaça nos levar de volta a um mundo onde a força prevalece". Uma nova ordem mundial Mapa mosta configuração do mundo na ordem multipolar. arte/g1 Nova configuração da ordem mundial atual, segundo analistas. arte/g1 Rússia: influencia regional ou a '3ª potência'? Ainda falta consenso, entre especialistas, se o mundo mergulhou em uma ordem bipolar, dominada por Estados Unidos e China - e com uma influência da Rússia em menor grau no âmbito regional, ou se vivemos em uma era com esses três países como as três grandes esferas de influência. Isso porque, embora tenha um dos maiores arsenais militares do mundo, a Rússia ainda guarda distância dos EUA e da China em quesitos como tecnologia e logística militares. Além disso, é a 10ª maior economia do mundo, bem atrás, em termos absolutos, de EUA e China, que estão no topo do ranking dos maiores PIBs do planeta. Ainda assim, o governo de Vladimir Putin trava uma guerra de quase quatro anos em seu país vizinho, negocia de igual para igual com os Estados Unidos e, diante de ameaças ao leste europeu, fez a União Europeia ter de aumentar seu orçamento com defesa, resgatando uma corrida armamentista inédita deste o fim da Segunda Guerra. Para Leonardo Trevisan, apesar das ameaças de Putin, a Rússia deve se limitar a exercer influência apenas regional, e a ordem agora é bipolar, como no pós-Segunda Guerra, em que EUA e União Soviética dominaram os polos de poder. Desta vez, no entanto, com uma diferença: sai Rússia, entra China, diz ele. "O mundo, que era multilateral com alguns centros de poder, se transformou em bipolar", afirmou. O 'quintal' da China O rápido crescimento da economia chinesa e até a expansão militar do gigante asiático já vinham fazendo com que, nos últimos anos, especialistas e institutos de pesquisa começassem a apontar que o mundo poderia estar voltando para um sistema bipolar de poder. Além de ser a segunda maior economia do mundo, atrás justamente dos EUA, a China também vem expandindo o poderio militar nos últimos anos — uma das marcas da atual gestão do presidente do país, Xi Jinping. Formalmente, o governo chinês segue uma política de não intervenção e critica atividades militares conduzidas sem a aprovação do Conselho de Segurança da ONU — caso da ofensiva de Trump em Caracas, que nem sequer tinha o consentimento do próprio Congresso dos Estados Unidos. Na prática, no entanto, Pequim tem mostrado indícios de que pode fazer exatamente o mesmo. Os exercícios militares ao redor de Taiwan são o exemplo mais evidente. No fim de dezembro, forças chinesas fizeram um dos maiores cercos da História ao redor da ilha, que Pequim reivindica como parte de seu território. As manobras não foram por acaso: ocorreram em retaliação a uma venda de armas que os EUA fizeram ao governo autônomo da ilha, que é também o fabricante de chips mais importante do mundo. O governo chinês disse que os exercícios foram um “alerta severo” à “interferência externa”. Mas o "quintal" geopolítico da China não se limita a Taiwan. O governo de Xi Jinping tem investido na construção de ilhas artificiais e é acusado por diversos governos na Ásia de invadir as águas dos países vizinhos. Além de "demarcar território", trata-se de uma estratégia de defesa militar. “A China encheu o mar da China de ilhas artificiais de uma forma que é impossível invadi-la”, disse Trevisan. Essa mudança de postura, segundo o professor da ESPM, aponta para um ciclo de expansão do país asiático, focado na expansão comercial, mas também na proteção de seu território de eventuais ataques. “A China tem ciclos em que ela faz propagação de poder internacional e ciclos em que ela se fecha. Claramente, agora estão em ciclo de expansão”, disse. 'Este é o nosso Hemisfério' Nicolás Maduro a bordo do navio USS Iwo Jima, em foto compartilhada por Trump. REUTERS E foi justamente com um olho em Pequim que o governo Trump ordenou militares a invadir um país latino-americano, capturar seu presidente e retirá-lo do poder. Para o professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Oliver Stuenkel, a ação cimentou a transição "para um mundo de esferas de influência". "Mais do que um mundo bipolar ou multipolar, os eventos do fim de semana sugerem a transição para um mundo de esferas de influência, em que grandes potências têm liberdade para fazer o que quiserem nos seus determinados 'quintais'", disse ao g1 o professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Oliver Stuenkel. Em pronunciamento horas após a operação, Donald Trump disse claramente que seu governo tem a intenção de resgatar e ampliar a Doutrina Monroe – a política aplicada pelos Estados Unidos 200 anos atrás para ampliar domínio sobre a América Latina, em uma tentativa de evitar uma expansão soviética no continente americano. Na segunda-feira, respaldando o discurso de Trump, o Departamento de Estado dos Estados Unidos afirmou, em publicação em suas redes sociais: “Este é o nosso Hemisfério”. A frase mostra outro grande pilar da nova ordem mundial, segundo o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Fluminense (UFF), Vitelio Brustolin: o desrespeito às instituições multilaterais, principalmente a ONU. "Estamos vendo vários países invadindo outros territórios e rasgando a carta da ONU. Não se respeita mais o direito internacional, e isso começa pelo país que têm assento no Conselho de Segurança", disse Brustolin, em referência aos Estados Unidos. Trump x Xi Jinping Outro fator que, segundo os analistas, indicam a mudança da ordem mundial é a constante disputa de poder entre os dois grandes polos. A guerra tarifária que Trump e Xi travaram ao longo do ano passado foi apenas uma batalha dessa queda de braço, que envolve também acusações no âmbito diplomático. Nesta semana, após a ofensiva na Venezuela, o principal diplomata da China acusou os EUA de agirem como um "juiz do mundo". Já Trump, segundo fontes ouvidas pela rede de TV norte-americana ABC, pressionou a presidente interina venezuelana para que corte laços com o governo chinês, um dos principais compradores do petróleo venezuelano. O analista Eric Olander, cofundador do Projeto China-Sul Global, acha que a batalha no campo diplomático será uma das grandes armas das duas potências da nova ordem bipolar. "Em casos como o do Zimbábue e do Irã, ambos sancionados pelos EUA e pelo Ocidente, a China demonstra seu compromisso com essas relações por meio do comércio e do investimento, mesmo em circunstâncias difíceis", disse. "Retoricamente, Pequim será muito importante para mobilizar a opinião pública contra os EUA".

FONTE: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/08/os-chefes-do-poder-apos-venezuela-temos-uma-nova-ordem-mundial.ghtml


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