Celulares fiscalizados e medo de ser preso: venezuelanos relatam incerteza após captura de Maduro pelos EUA
10/01/2026
(Foto: Reprodução) Venezuelanos relatam incerteza após captura de Maduro pelos EUA
"Repressão", "medo", "incerteza", "angústia": essas foram as palavras mais repetidas pelos venezuelanos que conversaram com o g1 nos dias que se seguiram à captura do ditador deposto Nicolás Maduro pelos Estados Unidos.
Com o regime chavista ainda no poder - a vice-presidente, Delcy Rodríguez, tomou posse como presidente interina -, os venezuelanos seguem apreensivos para expressar publicamente qualquer opinião.
Vários deles preferiram não dar declarações, mesmo com anonimato garantido, por medo de retaliações. Os três que aceitaram falar pediram para ter a identidade preservada. Para manter o sigilo, o g1 usou nomes fictícios nesta reportagem.
➡️ Contexto: No sábado (3), logo após a prisão de Maduro pelas forças americanas, o governo venezuelano emitiu um decreto ordenando que a polícia investigasse e prendesse qualquer pessoa que estivesse envolvida "na promoção ou apoio ao ataque armado dos Estados Unidos".
'Vou apagar imediatamente'
Os venezuelanos ouvidos pela reportagem demostraram um medo generalizado da repressão e relataram que o governo passou a fiscalizar os celulares dos cidadãos nas ruas.
"As pessoas não podem ter nada contra o governo... Mensagens, figurinhas, vídeos que demonstrem a 'celebração' da captura de Maduro. Gostaria muito de poder te ajudar, mas há muita perseguição. Somos presos por tudo e por nada", lamenta Maria (*nome fictício) .
Por causa da fiscalização policial, todos apagaram o histórico de mensagens do celular logo após falar com o g1. "Já salvou o que falamos? Vou apagar o chat imediatamente", pediu um deles.
O medo de dar entrevistas e de falar sobre a situação do país também foi externado pelos venezuelanos. "Não acredito que uma pessoa que viva na Venezuela possa te responder essas perguntas", afirma José (*nome fictício) ao ser questionado sobre o cenário atual.
Autoridades da Venezuela prendem jornalistas
'Uma tensa calma'
O sentimento na capital Caracas é de "uma tensa calma", afirmou Maria*. Segundo ela, nos dias seguintes à operação militar dos EUA, as ruas estavam mais desertas, os comércios fecharam mais cedo e não havia transporte público suficiente.
Para José (*nome fictício), aos poucos, as rotinas estão sendo retomadas, mas permanece o "estado de preocupação e expectativa".
Bloqueios também vêm sendo feitos no centro da cidade para as marchas diárias organizadas pelo partido governista para pedir pela liberdade de Maduro e sua mulher, Cilia Flores.
Ruas vazias no centro de Caracas no dia 7 de janeiro
REUTERS/Leonardo Fernandez Viloria
Prisão de Maduro
Questionados sobre o sentimento que tiveram ao receber a notícia da prisão de Maduro, os venezuelanos ouvidos pelo g1 afirmam que as incertezas sobre o futuro e o sentimento de tensão prevalecem.
"Há um debate muito polarizado sobre isso, mas o uso de forças militares sobre o território venezuelano cria no cidadão um novo temor. Não há justificativa lógica para uma ação militar estrangeira em território nacional. A soberania é algo que, sob nenhum conceito, deve ser violada", defende Pedro (*nome fictício) .
Em relação aos clamores dos líderes da oposição na Venezuela, que denunciaram uma suposta fraude nas eleições presidenciais de 2024 e reivindicam o poder, os venezuelanos entrevistados dizem não ter certeza se a mudança de governo geraria a melhora que o país necessita.
Um afirmou que "mais do que pensar em quem é melhor ou pior", o questionamento necessário é: "quem pode garantir maior estabilidade política sem submeter o país aos interesses estrangeiros?".
"A oposição perdeu credibilidade e o povo clama por uma mudança real, que permita o avanço e o progresso da Venezuela", acredita José (*nome fictício) .
A situação econômica do país, com a intensa pobreza da população, é apontada por todos como o principal problema. E a incerteza vivida no momento fez os preços dispararem mais ainda.
Preços em mercado de Caracas
REUTERS/Leonardo Fernandez Viloria
'Não importa se são os EUA, a Rússia ou a China'
A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo, cerca de 17% do total, porém esse enorme potencial segue subaproveitado devido à infraestrutura precária e às sanções internacionais que restringem as operações.
A PDVSA, a petroleira estatal venezuelana, diz estar em negociações com os Estados Unidos, mas assim que anunciou sua vitória sobre Maduro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que os EUA iriam controlar a indústria petrolífera do país.
"O povo quer progresso econômico. A situação é grave e acredito que não importa às pessoas se são os EUA, a Rússia ou a China que irão administrar a empresa petrolífera: tamanha é a gravidade da situação econômica", diz José (*nome fictício) .
Já Pedro (*nome fictício) se posicionou enfaticamente contra os EUA explorarem os recursos nacionais venezuelanos.
"Há pessoas como eu que consideram indignante e alarmante o desejo de controle dos EUA sobre os recursos nacionais. A crise econômica da Venezuela não é apenas resultado de má gestão governamental, mas também de um acúmulo de problemas estruturais de dependência e de sanções internacionais impostas pelos EUA. É inconcebível permitir que o controle do petróleo venezuelano esteja subordinado às necessidades e interesses dos EUA", critica Pedro (*nome fictício) .
Em entrevista ao jornal americano "The New York Times" nesta quinta-feira (8), Trump declarou que seu governo deve seguir "administrando" a Venezuela e extraindo petróleo do país latino-americano "por muitos anos".